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Assembleia homenageia Cacique Babau com a Comenda 2 de Julho
Rosivaldo Ferreira da Silva, primeira liderança indígena a receber a mais alta condecoração do Parlamento da Bahia, foi elogiado por Marcelino Galo em discurso marcado pela emoção

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Pela primeira vez em sua história, a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) condecorou uma liderança indígena com a Comenda 2 de Julho, a mais alta honraria concedida pelo Parlamento. Proposta pelo deputado Marcelino Galo (PT), a homenagem a Rosivaldo Ferreira da Silva, o Cacique Babau, da nação tupinambá de Olivença (Sul do Estado), reuniu no plenário da Casa autoridades, representantes da sociedade civil e de tribos indígenas de diferentes regiões do estado. O encontro foi marcado ainda por tradicionais danças tupinambás, como a do Toré, e discursos em defesa da demarcação de territórios indígenas no Estado.

Marcelino Galo começou sua fala denunciando o genocídio dos povos indígenas nesses quase 520 anos de “invasão” do Brasil, como definiu Cacique Babau. “Prestamos aqui nossa solidariedade e admiração a toda nação Tupinambá que, nos séculos XVI e XVII, eram descritos pelos invasores portugueses como índios de verve guerreira e com apreço pela antropofagia”, contou o deputado, na sessão especial. Ele relatou ainda que, transformada em mão de obra escrava nos engenhos de cana-de-açúcar, os índios continuaram a se articular e a resistir. “Eles colocavam fogo nos engenhos, organizavam, articulavam e participavam de fugas junto com os escravos negros, embrenhando-se pelas matas que tão bem conheciam”, acrescentou Marcelino.


Segundo o parlamentar, os índios que já chegaram a formar uma população de cinco milhões no território brasileiro, hoje não passam de 800 mil. Para ele, até hoje, a discriminação contra os habitantes originais da terra persiste com a criminalização dos indígenas que lutam por seus direitos. Um exemplo disso, segundo o parlamentar, é o próprio homenageado Cacique Babau, que sofreu perseguições e processos judiciais por sua luta pela demarcação do território indígena. E lembrou, que desde 2012, encontra-se no Ministério da Justiça o processo de demarcação das terras tupinambás. “Hoje, 4.700 indígenas que estão na Serra do Padeiro, em Olivença, esperam a demarcação de terras, que já teve todas as contestações indeferidas e, no entanto, os sucessivos governos federais continuam descumprindo os prazos determinados”, afirmou Marcelino, que encerrou sua fala com as palavras “demarcação já, demarcação já”.

Presente na sessão, o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Paulo Cézar Lisboa Cerqueira, destacou as muitas “marcas, signos, índices e símbolos” da presença indígena entre os brasileiros. “Aqui falo de presença e não de contribuição, contribuição parece algo do passado”, afirmou ele, acrescentando: “Ao negarmos, simplesmente, apagamos uma parte importante do que caracteriza o Brasil. Afinal, identidade de algo só pode existir em sua inteireza: se tiramos uma parte, o todo não mais o é. Pode ser até outro, porém já não é mais nosso ‘Brasil brasileiro’ como nos ensina a canção”, afirmou ele.

Na visão de Cerqueira, o ato realizado na ALBA significa essa presença. “O Cacique Babau não representa aqui apenas o seu povo Tupinambá. Representa todos os povos indígenas incrustados no Brasil, incrustados dentro de nós, da nossa alma lembrou de brasileiro”, afirmou. Ao concluir seu discurso, o secretário de Justiça lembrou que os indígenas foram à luta pela liberdade e pela independência da Bahia e do Brasil. “Se renovamos todos os anos, nas comemorações do 2 de Julho, essa presença na figura do caboclo e da cabocla, por que uma liderança indígena, que é o Cacique Babau, não pode receber a Comenda 2 de Julho que alude ao episódio que em outro tempo ele mesmo lutou a favor de toda a Bahia?”, questionou.

A antropóloga Daniela Alarcon, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que há nove anos faz pesquisas com os tupinambás da Serra do Padeiro, entende a comenda concedida ao cacique Babau como o reconhecimento de uma empreitada coletiva. “O reconhecimento da trajetória do Cacique Babau, expresso pela comenda, não repara, não apaga as violações que ele e seu povo vêm sofrendo, perpetradas inclusive, o que é muito grave, pelo Estado brasileiro. Mas esse reconhecimento, certamente, é um contraponto importante à memória oficial, à construção ideológica da assim chamada zona cacaueira, apoiada no discurso pioneiro e na negação da presença indígena”, afirmou ela.
Ao agradecer a homenagem, Cacique Babau falou das “perseguições” sofridas pelos povos indígenas do Brasil. “Nos colocaram numa prisão por causa de nossa defesa das nações indígenas, sobretudo a Tupinambá. Mas nós vamos resistir. Chega de humilhação e desprezo pelas minorias”, disse Babau, sendo aplaudido e reverenciado pelos indígenas com o som dos chocalhos. Segundo ele, os indígenas que já chegaram a 800 mil na Bahia, hoje não passam de 50 mil. E garantiu que os tupinambás não sairão da Serra dos Padeiros, também conhecida como Terra dos Encantados, onde lutam para ver suas terras finalmente demarcadas. “Somos uma nação indígena que merece respeito e não discriminação e racismo”, disse ele, estendendo a sua defesa para outras tribos existentes.

Babau fez questão de nominar essas tribos, citando os Atikum, Kaimbé, Kantaruré, Kiriri, Pankaru, Pankararé, Pataxó, Pataxó Hã-ha-hãe, Payayá, Truká, Tumbalalá, Tupinambá, Tuxá e Xukuru-Kariri, entre outas. Ele observou que todas esses tribos têm religião, história, sabedoria, vida, sente dor. “A Bahia, que foi o berço da invasão de nosso país, tem negado os direitos dessas nações indígenas”, afirmou ele, acrescentando que muitas dessas tribos hoje estão confinadas a espaços limitados. “Esses filhos da terra não têm direito a nada”, afirmou, defendendo que é preciso quebrar “esses quase 500 anos de perseguição e preconceito”.

Também participaram da sessão especial, os secretários da Casa Civil, Bruno Dauster, e de Desenvolvimento Rural, Jerônimo Rodrigues; o deputado federal Afonso Florense (PT); os deputados estaduais Bira Corôa (PT), Pastor Sargento Isidório (Avante) e Maria del Carmen (PT); entre outras autoridades.
JulianaAndrade/Agência-ALBA
  • Publicado em: 30/11/2018
  • Setor responsável: ASSESSORIA COMUNICACAO SOCIAL
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